22 de fev de 2010

[Roteiro] Chaves Episódio Perdido

Espíritos Zombeteiros, parte 1


Cena 1

Quico esta jogando iôio no patio da vila e Chaves entra chorando carregando um saco de pão.

Quico: Chaves, Chaves. Por que você ta chorando?

Chaves: Porque o Seu madruga me mandou comprar pão e vai ficar bravo comigo e me bater.

Quico: Mas você trouxe o pão.

Chaves: Mas eu vim comendo.

Quico: Ai Chaves, não seja tonto. O Seu Madruga nem vai perceber que falta um pãozinho.

Chaves: É que com esse eu já comi quatro.

Quico: Quatro?

Chaves: Você acha que ele vai notar que faltam quatro pãezinhos? O que você acha, hein?

Quico: E quantos ele mandou você buscar?

Chaves: Cinco.

Quico: Sabe de uma coisa, Chaves. Não se esqueça de me convidar para a inaugurarão do seu cérebro.

Chaves: Eu só não te arrebento porque eu não entendi o que você falou.

Quico: Eu sei que não entendeu. Você nunca entende.

Chaves: Está me chamando de burro?

Quico: Até que enfim você entendeu.

Seu Madruga sai de sua casa, mas Chaves não percebe e continua falando com Quico.

Chaves: Pra te provar que eu não sou burro, sabe o que eu vou fazer? Vou comer o pãozinho que sobrou e depois dizer pro Seu Madruga que me roubaram os pãezinhos.

Quico (que estava vendo o Seu Madruga atrás do Chaves): Não faça uma coisa dessa com o Seu Madruga, um homem tão bondoso, tão simpático, tão meigo, tão inteligente...

Chaves: Inteligente o Seu madruga? Pra você ver como ele é burro, ele nem vai notar o que eu vou fazer.

Quico: Mas eu aposto que vai.

Chaves: E eu que... (Chaves vira e dá de cara com Seu Madruga). Pi Pi Pi Pi.....

Seu Madruga: Muito bem, muito bem, muito bem.

Quico: Nota cem, nota cem, nota...

Seu Madruga encara Quico que pára de falar.

Seu Madruga: Muito bem. Isto é uma coisa que não tem nome. (diz isso balançando um pãozinho que acabou de tirar da mão do Chaves)

Chaves: Tem, se chama pãozinho.

Seu Madruga: Eu falo do ato que acaba de cometer. Pra que te servem os exemplos que eu te dei? Não me responda. De agora em diante venha me pedir vinte centavos (diz em tom irônico).

Chaves: Me dá vinte centavos?

Seu Madruga: Isso me deixa numa dúvida, Chaves. Não que você seja tonto. Mas que seja um mentecapto.

Chaves: Ah bom, isso é verdade.

Seu Madruga: E da próxima vez que eu precisar de um favor, não vou mais te incomodar. Vou incomodar o primeiro idiota que eu ver na frente.

Quico: Eu não vou poder porque... (Quico pensa e pára de falar).

Seu Madruga: Olha Quico, se o Chaves tem um cérebrozinho, o seu deve ser microscópico. Agora vamos (se exaltando), saiam daqui. Pode ser contagioso. Desapareçam!

Quico e Chaves saem do pátio escorraçados.

Seu Madruga: Esse pãozinho tem mais miolo que vocês. (e joga fora o pãozinho que estava segurando).

Dona Clotilde sai de sua casa e encontra o Seu Madruga.

Bruxa do 71: O que houve Seu Madruga? Parece muito pensativo

Seu Madruga: Pois é, Dona Clotilde, eu estava pensando. A senhora sabe até onde a fome pode nos levar.

Bruxa do 71: Sim, ao restaurante.

Seu Madruga: Outra.

Bruxa do 71: O que disse?

Seu Madruga: Nada, nada.

Bruxa do 71: O senhor está com uma cara de preocupado Seu Madruga. O que houve? Sente-se mal?

Seu Madruga: Eu?

Bruxa do 71: Sim, não gosto nada da sua cara.

Seu Madruga: Então empatamos.

Bruxa do 71: Eu me refiro ao seu humor, ao seu estado de alma. Tenho certeza de que há alguma coisa oprimindo seu peito.

Seu Madruga: É a camiseta. Me deram essa, o numero é 32, mas eu uso 38.

Bruxa do 71: Que coincidência Seu Madruga, meu numero também é 38.

Seu Madruga: Eu pensei que só o seu sapato fosse 38.

Bruxa do 71: Mas está enganado. É falta de modéstia dizer. Sabe quanto eu tenho de quadris?

Seu Madruga: Meio quilo.

Bruxa do 71: Não (diz brava). Embora o senhor não acredite eu tenho 89.

Seu Madruga: Não, não, não, estamos falando de quadris e não de idade.

Dona Clotilde olha furiosa.

Seu Madruga: Digo, digo. Não ligue pra mim. Eu tava só brincando.

Bruxa do 71: Pois ainda bem. Agora me diga, o que é que o está preocupando tanto?

Seu Madruga: Na verdade... Na verdade... Na verdade é o Chaves.

Bruxa do 71: Mas o que é que está acontecendo com o Chaves?

Seu Madruga: Nunca toma café da manhã.

Bruxa do 71: Mas o senhor não pode resolver o problema de todos os pobres que existem no mundo.

Seu Madruga: É claro que não.

Bruxa do 71: Em vez disso devia se preocupar mais com você mesmo. Ainda não pensa que talvez te faça falta uma companheira.

Seu Madruga: Talvez, talvez.

Bruxa do 71: E a mulher ideal para o senhor, como seria?

Seu Madruga: Bom, dormindo.

Bruxa do 71: Claro, mas como ela é mais ou menos?

Seu Madruga: Como a Bruna Lombardi.

Bruxa do 71: Bruna Lombardi? Tire a boquinha da Bruna Lombardi, os olhos, as pernas, a cinturinha e todo o resto. O que resta?

Seu Madruga: A senhora.

Seu Madruga entra em sua casa.

Cena 2

É a famosa cena do sonambulismo do Seu Madruga. Ele põe os sapatos, se levanta, pega um prato, finge que enche de comida, sai de sua casa, Coloca o prato dentro do barril do Chaves, e volta a dormir. Ao fundo uma música bem sinistra.

Cena 3

Quico e Chaves estão conversando no pátio.

Quico: Um prato?

Chaves: E com esse já são 4 pratos que aparecem dentro do barril. E se ao menos tivessem comida, mas não.

Quico: Quem será que colocou ele lá dentro?

Chaves: Sheila.

Quico: Sheila?

Chaves: Shei lá quem é. Olha Quico, pode ser que sejam pratos voadores.

Quico: Pera aí, deixa eu ver (tira o prato da mão do chaves e o deixa cair no chão). Não, não voam. (diz após o prato se espatifar dentro do barril do Chaves).

Dona Clotilde entra no pátio cantarolando. Com uma cesta de compras.

Quico: A bruxa do 71.

Bruxa do 71: O que disse?

Quico: Nada não, eu estava falando de uma outra senhora que também parece bruxa.

Bruxa do 71: O quê?

Chaves: Não ligue pra ele não, é que o Quico é tão burro que pensa que todas as velhas feias são bruxas.

Bruxa do 71: Eu posso ser feia mas você é um encardido.

Chaves: Mas disso eu posso me livrar tomando banho.

Quico gargalha e pára abruptamente quando a Bruxa olha feio para ele.

Bruxa do 71: Como eu gostaria de mandar seu terninho de marinheiro para a tinturaria.

Quico: O meu terninho para a tinturaria?

Bruxa do 71: Sim, mas com você dentro.

A Bruxa sai andando e bate na casa do Seu Madruga.

Seu Madruga (lá de dentro): Quem é?

Bruxa do 71: É a bruxa do... É a senhorita do 71. Estou trazendo da venda o que o senhor me pediu.

Seu Madruga (que continua lá dentro sem aparecer): Ah sim, entre por favor.

Bruxa do 71: Obrigada.

Quico: Escuta o que eu estou dizendo. A Bruxa do 71 faz aparecer os pratos com suas feitiçarias.

Chaves: Você acredita nessas histórias de bruxas?

Quico: Não, são muito mentirosas.

Chaves: Isso é verdade. Mas será que ela pode te transformar num animal?

Quico: Mas é claro que pode.

Chaves: E depois ela pode voltar a te transformar em Quico ou te deixa animal assim como você tá?

Na casa do Seu Madruga ele e dona Clotilde conversam.

Bruxa do 71: Mas tem certeza, Seu Madruga?

Seu Madruga: Absoluta, Dona Clotilde. Esse já é o quarto prato que desaparece. E tenho certeza porque deixo aqui mesmo. É o prato com que eu vou comer no dia seguinte.

Bruxa do 71: Mas Seu Madruga, o senhor por acaso não seria sonâmbulo?

Seu Madruga: E o que religião tem a ver com isso?

Bruxa do 71: Seu Madruga, sonâmbulo são as pessoas que caminham dormindo.

Seu Madruga: Já sei, os que caminham de lá pra cá assim né (começa a imitar um sonâmbulo). Não, não, não. Eu não.

Bruxa do 71: E como sabe?

Seu Madruga: Porque geralmente sonâmbulos são loucos.

Bruxa do 71: Eu sofro disso.

Seu Madruga: Está vendo, está vendo, o que quer dizer.... A senhora sofre mesmo disso?

Bruxa do 71: Sim, e não sou louca. Com licença.

A Bruxa do 71 pega sua cesta e sai da casa do seu Madruga. Quico e Chaves ainda estão no pátio. Dona Clotilde imita uma bruxa e dá um susto nas crianças. Depois entra em sua casa.

Chaves: O que será que a Bruxa do 71 fazia na casa do Seu Madruga, hein?

Quico: Chaves, ela pode ter transformado o Seu Madruga em burro.

Chaves: Não, em burro não. O engraçado da transformação é mudar bastante.

Na casa do Seu Madruga ele desembrulha um pacote e tira um peixe de dentro dele.

Seu Madruga: Puxa, ela se enganou de pacote (sai de sua casa segurando o peixe na mão, e vai para o pátio). Dona Clotide, Dona Clô (grita).

Quico: Nossa, ela transformou ele em vara de pescar.


Cena 4

Uma nova cena de sonambulismo exatamente igual a cena 2. A única diferença é que após colocar o prato no barril, Seu Madruga diz:

Seu Madruga: Toma Chaves, aqui está sua comida. E só não te dou outra porque....

Cena 5

Chaves e Quico estão no pátio conversando e Chaves mostra mais um prato.

Chaves: Olha aí, outro. Mas também sem comida.

Quico: Será que você só sabe pensar em comida?

Chaves: Não é verdade. Eu também penso no lanche e na sobremesa. Em que mais eu posso pensar?

Quico: No misterioso caso dos pratos que apareceram no barril. Quem os terá trazido?


Cena 6

É noite na vila. Dona Clotilde e Dona Florinda estão conversando. A primeira fala de Dona Clotilde é como uma resposta a pergunta do Quico.

Bruxa do 71: Espíritos zombeteiros.

Dona Florinda: Espíritos zombeteiros?

Bruxa do 71: Mas é claro. Como você explica que desapareçam os pratos da casa do Seu Madruga?

Dona Florinda: Sei lá, mas alguma explicação deve haver.

Bruxa do 71: Sim, os espíritos zombeteiros. É a coisa mais comum numa construção tão antiga como esta.

Dona Florinda: Dona Clotilde, não seria mais fácil imaginar uma outra coisa. Por exemplo que o Seu Madruga seja sonâmbulo e que ele mesmo...

Bruxa do 71: Não, não, Dona Florinda. Eu também havia pensado o mesmo. São espíritos zombeteiros.

Dona Clotilde entra em sua casa. Chaves chega ao pátio equilibrando a vassoura no pé e é abordado por Dona Florinda.

Dona Florinda: Chaves, você não sabe se o Seu Madruga é sonâmbulo?

Chaves: Não, é catarinense.

Dona Florinda: Não me refiro a isso. Você não sabe se o Seu Madruga faz alguma coisa dormindo?

Chaves: Sim, ronca feito um porco na lama.

Dona Florinda: Não Chaves, não é nada disso. Eu quero dizer se ele não se levanta e faz as coisas dormindo?

Chaves: Ah não. Se acordado ele não faz nada, agora dormindo muito menos.

Dona Florinda: Por acaso você não sabe o que é sonâmbulo?

Chaves: Não, eu fui reprovado em aritmética.

Dona Florinda: Que aritmética coisa nenhuma. Eu estou falando das pessoas que caminham dormindo.

Chaves: E dormem de pé igual as galinhas?

Dona Florinda: Não, Chaves. Primeiro eles dormem e depois eles se levantam e caminham assim (e demonstra como caminha um sonâmbulo).

Chaves: Ah sim. Como as "miúmias" das "pirândes".

Dona Florinda: Sim, quer dizer... mais ou menos Chaves. Mais ou menos.

Seu Madruga sai de sua sua casa e se aproxima de Chaves e Dona Florinda sem ser visto.

Dona Florinda: Você viu o Seu Madruga assim?

Chaves: Não, as múmias são muito magras mas nem tanto.

Seu Madruga (interrompendo): De que falavam?

Dona Florinda: Nada. Eu estava tentando explicar para o Chaves do 8 o que é um sonâmbulo, mas é ainda é pior que pretender que um burro entenda de teoria atômica.

Dona Florinda entra em sua casa.

Chaves: Seu Madruga, os burros não entendem a teoria atômica?

Seu Madruga: Não. Claro que não, Chaves.

Chaves: E o senhor entende?

Seu Madruga (tentando mudar de assunto): Quer que eu explique o que é um sonâmbulo?

Chaves: Sim.

Quico sonâmbulo sai de sua casa.

Seu Madruga: Veja, isso é um sonâmbulo (diz apontando pro Quico).

Chaves: Não, esse é o Quico.

Seu Madruga: Mas ele é sonâmbulo porque está dormindo e caminhando. Veja.

Chaves: Dormindo?

Chaves se aproxima de Quico mas é contido por Seu Madruga.

Seu Madruga: Não, não, não faça isso que você vai acordá-lo. E me disseram que é muito perigoso acordar bruscamente as pessoas que estão dormindo assim.

Quico mesmo dormindo começa a jogar o iôio e a seguir dá um soco na cara do Chaves.

Chaves: Agora sim, eu vou te arrebentar. (e se prepara para um dar um soco no Quico).

Seu madruga entra na frente e leva uma seqüência de socos do Chaves.

Seu Madruga: Tinha que ser o Chaves mesmo.

Chaves: Foi sem querer querendo. Eu tava querendo bater no Quico.

Seu Madruga: Isso é pior do que bater em mim. Eu não falei que é perigoso acordar as pessoas bruscamente que estão assim.

Chaves: Mas foi ele que começou primeiro.

Seu Madruga: Mas você tem que agüentar.

Quico dá um soco em Seu Madruga.

Chaves: O senhor também tem que agüentar?

Seu Madruga: Claro.

Chaves: Mas se ele não tivesse sonâmbulo, o senhor não ia se agüentar?

Seu Madruga: Claro que não.

Chaves: Mas como ele ta sonâmbulo o senhor tem que se agüentar?

Seu Madruga: Lógico.

Chaves: Mas se ele não tivesse sonâmbulo, você não ia se agüentar.

Seu Madruga: Não.

Chaves: Mas...

Quico: Cale-se, cale-se, cale-se que você vai me acordar.

Chaves: Tá vendo. Ele não ta dormindo não.

Seu Madruga: Tá dormindo Chaves, entenda. Acontece que até dormindo as pessoas pode falar.

Quico: Mamãe (grita).

Seu madruga: Ta vendo, podem até gritar.

Dona Florinda vem correndo.

Dona Florinda: Nossa, ele ta sonâmbulo de novo. Vamos Quico, não se junte com essa gentalha.

Quico, mesmo dormindo, dá o "gentalha, gentalha" em Seu Madruga que como diz a canção fica louco e pisa em cima do chapéu.


Cena 7

Quico e Chaves estão vendo televisão na casa de Dona Florinda. Dona Florinda chega da cozinha.

Dona Florinda: Muito bem crianças, já é hora de dormir. Eu vou desligar a televisão, viu.

Dona Florinda desliga e Quico se levanta e vai conversar com a mãe na sala de jantar.

Quico: Ah, mamãe. No ponto mais emocionante.

Dona Florinda: Eu sei tesouro. Mas é muito tarde e crianças da sua idade devem dormir pelo menos 10 horas e amanhã você tem aula.

Quico: Por isso mesmo. O que faltar eu durmo na escola.

Dona Florinda: Quico (fala brava)!

Quico: Por isso é que eu digo que é melhor acordar cedo.

Dona Florinda: Assim é que eu gosto. Agora diga ao Chaves do 8 que vá pra casa dormir.

Quico: Sim, Mamãe. Chaves, (e se aproxima de Chaves que esta deitado no sofá) minha mãe disse... Olha mamãe, o Chaves ta dormindo no sofá.

Dona Florinda: Mas claro. Esse sofá deve ser muito mais confortável que o chão onde ele dorme. Que fique aí.

Quico: E se o sofá amanhecer molhado?

Dona Florinda: Tesouro, ele já tem 8 anos.

Quico: E daí, eu tenho nove e...

Dona Florinda: Certo, tesouro. Mas é que você é muito nervoso, querido.

Quico: Então deixa ele aí. Até amanhã mamãe.

Dona Florinda: Até amanha, tesouro. E sonhe com os anjos.

Quico: Sim, mamãe. Eu sempre sonho comigo.

Quico apaga a luz e vai se deitar deixando Chaves dormindo (na verdade fingindo) no sofá da sala. Mal Quico acaba de sair, Chaves se levanta e vai em direção ao pão que está em cima da mesa. Porém, ao ouvir o barulho do Quico voltando, Chaves se deita e finge dormir.

Quico: Mamãe, será que o coitado do Chaves não ta com frio?

Dona Florinda (de dentro de seu quarto, sem aparecer): Não sei, talvez.

Quico deixa a sala e Chaves se levanta outra vez atrás do pão. Porém, ao ouvir Quico chegando ele se deita e finge dormir novamente. Quico chega com um cobertor e percebe que Chaves está deitado do lado oposto do que estava anteriormente. Quico estranha mas não fala nada, apenas cobre Chaves e vai embora. Chaves mais uma vez se levanta e ao ouvir Quico chegando corre para o sofá. Mas na pressa acaba caindo no chão. Quico chega com um travesseiro e vê Chaves no chão.

Quico: Mamãe. O Chaves caiu.

Dona Florinda (lá de dentro): Fez bem. Já era hora de cair no sono.

Quico: Mas ele não caiu no sono. Ele caiu pruuuuum..... (e faz seu ruído característico).

Dona Florinda (ainda fora de cena): É lógico, ele está acostumado a dormir no chão.

Quico coloca o travesseiro nos pés de Chaves e vai embora. Chaves se levanta e vai atrás do pão, mas ao chegar na sala de jantar dá de cara com Quico sentado na mesa. Chaves então se finge de sonâmbulo, andando com os braços pra frente. Chaves tenta pegar o pão mas Quico o impede mudando o pão de lugar sempre que o Chaves vai pegá-lo. Num descuido do Quico, Chaves agarra o pão e sai da casa da Dona Florinda ainda se fingindo de sonâmbulo.

Quico: Mamãe, os dois já foram embora.

Dona Florinda (ainda sem aparecer): Que dois?

Quico: O danado do Chaves e o pão.


Cena 8

Seu madruga sai de sua casa sonâmbulo e segurando um prato. Ele deixa cair o prato dentro do barril onde Chaves estava escondido comendo o pão e vai se deitar. Após receber a pratada na cabeça Chaves se levanta e começa a chorar (ele não viu que foi Seu Madruga quem jogou o prato). A seguir Dona Clotilde sai de sua casa e fala:

Bruxa do 71 (para a câmera): Pois eu insisto que o mistério dos pratos que desaparecem é obra dos espíritos zombeteiros. Duvidam? Pois se desejam comprovar não deixem de ver a solução do mistério no próximo programa neste mesmo canal e nesta mesma hora.

Espíritos Zombeteiros, parte 2

Cena 1

O episódio começa com mais uma cena de sonambulismo do Seu Madruga nos mesmos moldes do episódio anterior. Ele deixa mais um prato no barril.


Cena 2

É dia. Chaves e Quico conversam no pátio da vila.

Quico: Outro prato?

Chaves: Pois é... Desde a semana passada tem aparecido um prato por dia no meu barril.

Quico: Mas por que você rouba eles?

Chaves: Quem disse que eu roubo? Eu lá tenho cara de roubão?

Quico: Bom, não tem mas...

Chaves: Eu vou te avisar uma coisa, Quico. Da próxima vez que você me chamar de roubão eu arrebento sua fuça.

Quico: Eu não disse que você rouba de propósito.

Chaves: Como então?

Quico: Você é sonâmbulo.

Chaves: Eu não sou sonâmbulo.

Quico: Como não? Na semana passada você estava sonâmbulo e roubou o pão da minha casa.

Chaves: Pra você ver que eu não tava sonâmbulo.

Quico: Então?

Chaves: Estava me fazendo.

Quico: Que porquice.

Chaves (se exaltando): Eu tava me fazendo que eu estava sonâmbulo, mas eu não tava.

Quico: Estava bem acordado quando levou o pão da minha casa?

Chaves: Pois é. Ainda mais que...(Quico olha bravo). Bom eu não roubei o pão, eu apenas comi ele e...

Quico resmunga.

Chaves: Além disso, eu não estou roubando os pratos, pois eu estou guardando todos os pratos que aparecem aqui para que quando apareça o dono eu possa devolver pra ele. E esse aqui eu também vou devolver.

Chaves sai andando e vai para o outro pátio. Dona Clotilde sai de sua casa cantando: “Eu fui da mamãe”.

Bruxa do 71: Ai, como essa música me cai como uma luva!

Ela coloca alpiste dentro de uma gaiola vazia e o Quico olha espantado.

Quico: É um passarinho invisível?

Bruxa do 71: Não.

Quico: Então porque você ta colocando alpiste?

Bruxa do 71: Para que o primeiro idiota me faça essa pergunta.

Quico: E eu tirei o primeiro lugar.

Bruxa do 71: Isso sem dúvida nenhuma.

Quico: Quico! Quico! Rá! Rá! Rá!

Quico vai para sua casa todo feliz. Dona Clotilde continua colocando alpiste na gaiola e cantando a música. Seu Madruga sai de sua casa.

Bruxa do 71: Bom dia, Seu Madruga.

Seu Madruga: Bom dia.

Bruxa do 71: Quais são as novas?

Seu Madruga: Nenhuma. Só que continuam sumindo pratos da minha casa.

Bruxa do 71: Sim? Pois olhe que a Dona Florinda me contou que outro dia o Chaves do 8 entrou na casa dela como sonâmbulo e roubou o pão.

Seu Madruga: Então a senhora acha que o Chaves...

Bruxa do 71: Sonambulismo tem suas coisas, Seu Madruga. Olhe, há ocasiões em que me levanto assim, como se procurasse alguma coisa que tenha... Ai, como posso dizer?

Seu Madruga: Procurando alguma coisa que tenha calças.

Dona Clotilde olha brava.

Seu Madruga: Não, não. Claro que não. Me desculpa, me desculpa. Mas e daí?

Bruxa do 71: Uma coisa que tenha, tenha... Ah, sim. Isso mesmo. Uma coisa que tenha penas. (Nesse exato momento Quico sai de sua casa e começa a escutar a conversa).

Seu Madruga: Uma vassoura?

Bruxa do 71 (furiosa): Com licença.

Ela entra pra dentro de sua casa e Quico se aproxima do Seu Madruga.

Quico: Não, seu Madruga, o que ela procura é o canarinho de peito amarelo que tava na gaiola.

Seu Madruga: Ah é? Não me diga.

Quico: Mas ela nunca mais vai voltar.

Seu Madruga: E como sabe?

Quico mostra um estilingue pra o Seu Madruga que faz cara de reprovação e sai da vila.

Quico: Minha pontaria nunca falha.

Chaves entra na vila e Quico o leva para um canto.

Quico: Agora.

Chaves: agora o que?

Quico o leva para um outro canto.

Quico: Vamos investigar o misterioso caso dos pratos que aparecem no barril.

Chaves: Como?

Quico o leva para um outro canto.

Quico: Eu não sei.

Chaves: Então?

Quico o leva para um outro canto.

Quico: Quando todos estiverem dormindo a gente vem aqui pro pátio e fica escondido.

Chaves: Então a gente vai ver quem põe os pratos dentro do barril.

Quico: Isso mesmo.

Chaves: Mas não vamos dizer pra ninguém.

Quico: Claro que não.

Chaves: Por que se a gente diz, não vão mais colocar pratos no barril.

Quico: Não.

Chaves: por isso não podemos dizer a ninguém.

Quico: Não.

Chaves: Para que ninguém saiba porque...

Quico: Cale-se. Cale-se. Que você me deixa louco.

Chaves: Ninguém tem paciência comigo.

Quico: Bom a gente se vê aqui hoje a noite. A que horas você vai chegar?

Chaves: Na hora que der na minha telha.

Quico: Mas nem um minuto mais tarde, hein.

Cena 3

É noite e Chaves está chegando no pátio. Ele pára na frente da casa do Quico e assobia três vezes. Quico sai de sua casa imitando um sonâmbulo e vai para o meio do pátio.

Chaves: Você é sonâmbulo, Quico?

Quico: Claro que não. (e abandona o disfarce).

Chaves: Então porque você esta andando assim (imita um sonâmbulo) do jeito que sua mãe falou que andam os sonâmbulos.

Quico: É que eu tava vendo na televisão um filme de fantasmas que também caminham assim. Você gosta dos filmes de fantasma?

Chaves: O que eu gosto mesmo é de sanduíche de presunto.

Quico: Estou falando dos filmes que passam na televisão.

Chaves: Ah bom. Se é assim, sim.

Quico: Então...no fim do filme os mortos caminham.

Chaves: Em todo filme de televisão tem mortos que caminham porque os filmes são tão velhos que todos os atores já morreram.

Quico: Eu não to falando desses. Eu to falando dos filmes de mortos em que aparecem aqueles monstros feios como o lobisomem, o Frankeinstein, o Pedro de Lara, o Zé do caixão. Eles não te dão medo?

Chaves: Não. Pra mim o que da medo é a Chorona.

Quico: A Lucélia Santos?

Chaves: Não, a que ta sempre gritando.

Quico: A Zezé Macedo?

Chaves: Pior.

Quico: O Costinha? Ari Toledo? Não deu.

Chaves: Ela sempre sai andando assim (e começa a imitar a chorona), e gritando: “Onde estão meus filhos?”.

Quico: Cala essa boca (diz Quico imitando a voz da Chorona).

Chaves: Você sabe como é?

Quico: Sei. Mas ela te dá medo?

Chaves: É claro que dá. Só de pensar nela me tremem os cabelos e me arrepiam todos os joelhos, os três... E você não tem medo?

Quico: Claro que não (nesse instante Dona Clotilde sonâmbula sai de sua casa de camisola branca e touca e se aproxima dos garotos sem ser notada).

Chaves: Eu queria ver se ela aparecesse agora caminhando com os braços esticados como se quisesse agarrar a gente, e o seu camisolão branco....

Enquanto Chaves fala, Quico nota a presença de Dona Clotilde e começa a passar mal pois a confunde com a Chorona.

Chaves: Por que você ta com essa cara de peixe morto? Parece que viu assombração (Chaves vira, da de cara com Dona Clotilde e tem um piripaque).

Quico: Mamãe

Seu Madruga sai de sua casa.

Seu Madruga: O que você tem Quico?

Quico: A Chorona (aponta para bruxa)

Seu Madruga: Que Chorona coisa nenhuma... (ele se vira para a Dona Clotilde e leva o maior susto). Não é a chorona, é a Dona Clotilde que está sonâmbula, temos que tomar cuidado pois é muito perigoso acordar as pessoas nesse estado.

A Bruxa do 71 se aproxima do Seu Madruga e o abraça.

Bruxa do 71: Você voltou, meu amor, canarinho do peito amarelo.

Seu Madruga: Dona Clotilde, por aqui, por aqui.

Seu Madruga vagarosamente vai conduzindo Dona Clotilde até a casa dela quando esbarra em Chaves.

Seu Madruga: O que ele tem?

Quico: Ele se assustou com a Chorona e ficou paralisado.

Seu Madruga: Joga água na cara dele , só assim ele volta a si.

Quico: É verdade.

Enquanto Quico vai buscar água, Seu Madruga acaba de levar a Bruxa para casa dela e retorna para o pátio no instante em que Quico desperta Chaves. Seu Madruga ocupa o mesmo lugar onde antes estava a Chorona.

Chaves: Olha Quico, nasceram bigodes na Chorona.

Quico: Não é a Chorona, é a múmia seca.

Seu Madruga: Eu sou o que?

Quico: O esqueleto vingador? O Silvio Santos (enquanto Quico fala Seu Madruga se contorce de raiva)? O Chapolin Colorado? O Jô Soares? Não deu.

Seu Madruga belisca Quico.

Quico: Mamãe.

Seu Madruga: O que acontece é que vocês confundiram a dona Clotilde com a Chorona. Não sabem que é perigoso acordar senhoras assim.

Chaves: Era a Bruxa do 71?

Seu Madruga: Mas não chame ela de Bruxa. Ela pode acordar e eu já falei que não se deve acordar pessoas nesse estado (Dona Florinda, também sonâmbula, sai de sua casa com a mesma toca e a mesma camisola da Dona Clotilde e se aproxima se ser notada). Alem disso a Chorona não existe e...

Dona Florinda (com voz arrastada): Onde estará meu filho?

Seu Madruga leva o maior susto.

Quico: Mãezinha, o Seu Madruga me beliscou bem forte.

Dona Florinda da uma bofetada em seu Madruga e depois diz com a mesma voz arrastada.

Dona Florinda: Venha Quico, não se misture com essa gentalha.

Quico (imitando a voz arrastada da mãe): Gentalha! Gentalha! Gentalha! (e volta pra sua casa)

Dona Florinda: E da próxima vez divirta-se beliscando sua vovozinha. (ela também volta pra casa deixando Seu Madruga morrendo de raiva).

Seu Madruga: Sorte dela que ela ta sonâmbula.

Chaves: Seu Madruga, o senhor se diverte quando belisca sua vovozinha?

Seu Madruga vai bater em Chaves mas ele se finge de sonâmbulo e sai andando.

Cena 4

Seu Madruga e Dona Clotilde estão conversando na sala da casa do Seu Madruga. Ela está colocando açúcar dentro de uma xícara para ele.

Bruxa do 71: Está boa essa quantidade de açúcar?

Seu Madruga: Acho que sim, Dona Clotilde. Muitíssimo obrigado. Realmente eu não sei como poderia lhe pagar isso (Dona Clotilde faz cara de esperançosa). Não responda, não responda.

Bruxa do 71: Isso são coisas que estão me sobrando. Onde eu coloco a farinha?

Seu Madruga: Farinha? Deixa eu ver... Sabe o que é, esta noite desapareceu o ultimo prato que eu tinha.

Bruxa do 71: Sim. O mistério dos pratos que desaparecem.

Seu Madruga: É. É um mistério.

Bruxa do 71: Espíritos Zombeteiros.

Seu Madruga: Que?

Bruxa do 71: Esses pratos foram levados pelos espíritos zombeteiros que moram dentro dessa casa.

Seu Madruga: Ora, ora. A senhora não esta falando sério, não é?

Bruxa do 71: Eu to falando tão sério que esta noite mesmo realizaremos aqui uma seção espírita.

Seu Madruga: Olha, esta é a minha casa e eu não quero.

Bruxa do 71: Não se preocupe. Cá entre nós, eu tenho faculdades mediúnicas.

Seu Madruga: Bom, eu não duvido. Mas cá entre nós eu realmente não gostaria.

Bruxa do 71: Bem, eu vou deixar a farinha para que o senhor pegue o quanto quiser. Nos vemos a meia noite.

Ela se levanta e sai cantando “Eu fui da Mamãe”.

Seu Madruga (quando a bruxa já saiu): Dona Clo... (chamando-a como se tivesse esquecido algo).

Do lado de fora Quico e Chaves estão cabisbaixos. Dona Clotilde se aproxima e pergunta:

Bruxa do 71: O que foi?

Quico: Nós queremos nos desculpar por ontem a noite.

Bruxa do 71: Ontem à noite?

Quico: A gente jura que não conta pra ninguém que a senhora parece a Chorona.

Chaves: E também não vamos dizer que a senhora esteve abraçando.

Seu Madruga aparece na porta de sua casa e fica fazendo sinais para o Chaves não falar.

Bruxa do 71: Quem eu estive o que?

Chaves: Abraçando. Não se lembra quem estava abraçando ontem a noite?

Bruxa do 71: Bom, agora que você falou eu sonhei que abraçava um cãozinho vira-lata fedido (Seu Madruga ainda na porta faz cara de contrariado). Mas Chaves, como você sabe?

Seu Madruga (se intrometendo): Vamos, deixem de amolar a dona Clotilde.

Bruxa do 71: Bom, obrigada. Até a noite Seu madruga (e entra em sua casa cantando).

Seu Madruga: Francamente. Francamente. Só não te dou outra. Não sabem que à noite ela estava sonâmbula e os sonâmbulos não sabem o que fazem.

Chaves: Os sonâmbulos não sabem o que fazem?

Seu Madruga: Claro que não.

Chaves: Então os árbitros de futebol também são sonâmbulos.

Seu Madruga (irônico): Com uma ou outra rara exceção (e entra em sua casa).

Chaves: Quico, você é sonâmbulo?

Quico: Claro que não, eu fiz a prova.

Chaves: Como?

Quico: Fingindo que eu estou dormindo.

Chaves: A bom, se é assim sim... Sabe Quico, continuam aparecendo pratos no meu barril.

Quico: Então teremos que voltar aqui hoje a noite.

Chaves: Não.

Quico: Que é? Tem medo?

Chaves: Não é isso...

Quico: Então fica quieto. Nos vemos aqui esta noite.

Cena 5

Começa com mais uma cena de sonambulismo do Seu Madruga. Porem essa é um pouco diferente. Como não restam mais pratos em sua casa Seu Madruga pega seu chapéu e o enche de farinha que a Dona Clotilde tinha deixado em cima da mesa. Depois ele coloca o chapéu no barril e volta a dormir.

Chaves aparece no pátio e vai chamar o Quico com um assobio. Quico vai pra fora e responde com outro assobio. Chaves por sua vez responde com outro assobio (é uma espécie de código).

Quico: Apareceram mais pratos dentro do barril?

Chaves: Não sei. Eu ainda não vi.

Quico: Então vai ver. Vai ver.

Chaves vai até o barril, olha dentro e encontra o chapéu cheio de farinha.

Chaves: Não apareceram mais pratos, mas apareceu isto (e mostra o chapéu).

Quico: Esse não é o chapéu do Seu Madruga?

Chaves: Acho que é. Tem farinha.

Quico: Chaves. Não será mais uma bruxaria da Bruxa do 71?

Chaves: Nossa. É melhor a gente levar o Seu Madruga pra casa.

Quico: Sim, Chaves.

Os dois entram na casa do Seu Madruga e nem percebem que ele esta dormindo no sofá. Deixam o chapéu em cima de uma cômoda, mas quando vão sair da casa dão de cara com a bruxa do 71 que está no pátio. Os dois entram de volta e vão se esconder. Quico vai para cozinha. Chaves vai para debaixo da mesa. Seu Madruga desperta.

No pátio Dona Clotilde se encontra com Dona Florinda que acabou de sair.

Bruxa do 71: Já estava achando que você não viria.

Dona Florinda: Eu só vim por curiosidade, é claro.

Enquanto as duas conversam o Seu Madruga aparece.

Seu Madruga: Pois não?

Bruxa do 71: Como combinado viemos realizar a seção de espiritismo.

Seu Madruga: Bem, eu estive pensando...

Enquanto ele fala as duas entram e o deixam falando sozinho. Quando ele vai entrar dá de cara com a porta que elas acabaram de fechar.

Cena 6

Começa a sessão espírita. As crianças continuam escondidas. Toca uma música sinistra. Dona Clotilde, Dona Florinda e Seu Madruga estão sentados na mesa da sala.

Seu Madruga (assustado): Quero dizer que... Francamente, eu não acredito nisso.

Bruxa do 71: Foi isso mesmo que uma amiga me disse uma vez. E você não sabe o que ela fez quando viu um fantasma.

Dona Florinda: O que?

Bruxa do 71: Morreu de susto. Eu acho que o melhor é aceitar isso como a coisa mais natural do mundo.

Ela pega a mão de Dona Florinda, mas quando vai pegar a do Seu madruga ele hesita.

Bruxa do 71: Me dê sua mão.

Seu Madruga: Eu sou casado. Digo... Eu sou viúvo.

Bruxa do 71: Eu estou pedindo a sua mão para estabelecer uma corrente.

Seu Madruga: só espero que não queimem nossos fusíveis.

Bruxa do 71: Silêncio. Silêncio. Eu preciso de silêncio pra ver se é possível a comunicação com os mortos.

Embaixo da mesa, Chaves faz cara de assustado.

Dona Florinda: Realmente a senhora crê que seja possível se comunicar com almas de outro mundo.

Bruxa do 71: Mas é claro. E elas se comunicam por meio de pancadas.

Seu Madruga: Uh! Pra mim já bastam as pancadas que a Dona Florinda me dá.

Bruxa do 71: Não estou falando de pancadas de bater, mas no som de pancadas. Uma pancada (bate uma vez na mesa para exemplificar) quer dizer "sim". Duas pancadas (bate duas vezes na mesa) quer dizer "não".

Dona Florinda: E quando a senhora começa a escutar?

Bruxa do 71: Quando eu conseguir me concentrar... Silêncio. Silêncio. Me sinto penetrar no aposento do mun....

Seu Madruga: É no fundo a direita.

Dona Florinda: Cale a boca! Não interrompa.

Bruxa do 71: Seres de outro mundo, quero saber se aqui há algum morto? Se há aqui algum espírito, me responda.

Na cozinha Quico começa a passar mal de tanto medo e dá uma cabeçada na porta. Todos pensam que foi uma resposta dos espíritos.

Dona Florinda: Sim. Disseram que tem.

Seu Madruga: Não, eu não acredito.

Dona Florinda: Sim, homem. Você não ouviu que uma pancada quer dizer sim e duas pancadas querem dizer não.

Seu Madruga: Não precisa me dizer. Já haviam me dito. Ou acha que sou idiota?

Quico dá uma nova cabeçada na porta.

Dona Florinda: Os espíritos acham que sim.

Seu Madruga: É mentira, eu sou uma pessoa inteligente.

Quico dá duas cabeçadas na porta. Quico grita:

Quico: Mamãe.

Dona Florinda: É a voz do Quico.

Seu Madruga: Ele já morreu?

Dona Florinda: Não.

Bruxa do 71: Silêncio. Silêncio. Isso nós poderemos averiguar agora mesmo. Se há algum defunto nessa residência que se manifeste de corpo presente.

Chaves (que está embaixo da mesa) se assusta e começa a puxar a toalha.

Dona Florida (espantada): Olha a toalha, está se movendo.

Bruxa do 71: Isso é uma coisa muito comum. Não estranhem se a mesa começar a se agitar.

Chaves começa a se mexer e a mesa começa a tremer. Dona Florinda e Seu Madruga fazem cara de espanto enquanto a Bruxa do 71 continua concentrada. Quico abre a porta da cozinha e vai para sala sem ser notado. Ele coloca a mão no ombro do Seu Madruga que quase morre de susto.

Seu madruga (gritando): Mamãe!

Todos saem correndo apavorados da casa do Seu Madruga. Chaves fica tremendo embaixo da mesa.

Cena 7

No outro dia, todos estão conversando no pátio. Chaves segura os pratos.

Chaves: Eu não sabia que os pratos eram do Seu madruga.

Seu Madruga: Eu também não sabia que era sonâmbulo.

Dona Florinda: Pois eu lhe disse, mas o senhor não me deu atenção.

Bruxa do 71: Pois eu também lhe disse.

Seu Madruga: Então porque a senhora insistiu tanto em acusar os espíritos zombeteiros?

Bruxa do 71: Foi bobagem. Porem eu já me convenci de que isso não é verdade. E que somente as pessoas ignorantes podem acreditar em mortos que aparecem ou em coisas semelhantes.

Seu Madruga: Pois ainda bem.

Chaves: Seu Madruga, seus pratos (ele oferece os pratos ao Seu Madruga, mas acaba ficando com eles, pois Quico o interrompe).

Quico: Seu Madruga, seu chapéu.

Seu Madruga veste o chapéu e toma um banho de farinha.

Chaves: Isso é caspa?

Seu Madruga dá uma cacetada em Chaves que deixa cair todos os pratos.

É o fim do episódio.


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